Dois Toques/Orlindo Lopes

Quase ninguém conseguiu definir exatamente quem foi e o que jogou César. Apenas aqueles que o conheceram de perto podem fazer uma análise mais aprofundada acerca dele. Que foi craque isso a própria história crava em seus anais e dissipa qualquer dúvida. Vou tentar explicar à minha maneira, Paulo César Santos, ou César Velho, sem dúvidas, um dos maiores talentos amadores do futebol de Ipiaú e do interior da Bahia, em todos os tempos. Desde a aparição do campo da Baixada, na verdade, um espaço onde acabou sendo construído o Ginásio de Esportes Clériston Andrade, em cuja extensão que ainda existe foi instalado um novo campo, e que desde algumas décadas atrás transformou-se num autêntico celeiro de craques ipiauenses, que os nossos mestres, aqueles como o velho, competente e saudoso Chico, Ivan, Júlio César, (fotógrafo), entre outros também importantes, começaram a observar com profundo carinho as promessinhas que surgiam em profusão, e mesmo sendo todas ainda muito jovens, participavam freqüentemente nos tradicionais babas que ali eram realizados em todos os finais de tarde durante as semanas e manhãs de domingos. César era uma dessas promessas. Franzino, elegante e sutil, tinha com a bola a intimidade de quem efetivamente se afina. Os dois eram afetivamente ligados. Ela atendia com excessiva obediência ao seu domínio incomum, e ele a tratava como algo que lhe pertencia. Uma vez revelado e lapidado, César contrariou a muitos dos que faziam julgamento precipitado a seu respeito. Algumas pessoas chegaram a taxá-lo de “jogador de baba”, “promessa falsa”, coisas assim. Mas ele respondia a todos jogando um futebol, mesmo festivamente, em alto estilo. César jogou no lendário Nacional, aliás, onde foi definitivamente “penteado”, enquanto esteve sob os cuidados e as mãos mágicas do excepcional e saudoso Chico. A exemplo de contemporâneos do tipo Kipá, Sande, Wilson, Ral, João Velho, e outro, que se tornou uma lenda do futebol ipíauense, o excepcional Joelson, que reputo como sendo um dos três maiores goleiros amadores que conheci, e que também surgiu na abençoada e rica Baixada, César era muito afeito ao anonimato. Não gostava de badalações excessivas. Os elogios em relação ao que jogava ele os tirava de letra, quanto às críticas, sinceramente, nunca ouvi ou li qualquer coisa que alguém tenha dito ou escrito reprovando alguma atuação que ele tenha realizado. Não era completo, é claro, porque no futebol a perfeição é praticamente inatingível, mas que César jogava o fino, isso é fato! No auge de sua forma, no final da década de setenta, César vinculou-se ao fantástico Temão, onde se notabilizou de vez como craque. Naquele time maravilhoso e histórico, confirmou todas as expectativas que reinavam em torno de suas qualidades, vindo em seguida a formar na Seleção de Ipiaú que conquistou o Intermunicipal de 1977. E em todas as oportunidades jogando um futebol em nível de fazê-lo em qualquer time profissional dos melhores do Brasil. No Temão, César figurou num meio de campo sensacional, ao lado de Kipá, Litinho e Dadá. Posso afirmar, sem nenhum exagero, que poucos times amadores baianos conseguiram formar uma meia cancha de tanto talento! César nunca quis jogar como profissional. Até porque futebol para ele era uma grande diversão. Infelizmente para todos nós, que sabíamos do quanto ele era craque, e que imaginávamos como poderia ser grandiosa a carreira de alguém que tinha tanto talento! Como o tempo tem nos mostrado, os gênios da bola às vezes param prematuramente, ainda tendo muito a apresentar. César parou num momento em que o futebol precisava mais do que nunca de talento, de genialidade, e ele os tinha de sobra, e conseqüentemente ainda muito a dar. Ainda hoje, já quase veterano, César Velho, como era carinhosamente chamado aqui, desfila nas areias de Copacabana, Ipanema, Tijuca e São Conrado, na bela Capital carioca, o mesmo mágico futebol que fez dele craque, no sentido maior da expressão! O futebol amador da Bahia sente e sentirá até não sei quando, uma falta danada de César Velho, e de outros gênios que pararam antes da hora, deixando lacunas realmente muito difíceis de serem preenchidas. Foi bom demais falar de César Velho, que além de ter sido craque da maior expressão, é ser humano muito afetivo e eu, particularmente, além de ser amigo dele, contribui de certa forma com o que ele representou para o futebol baiano e brasileiro. César tem sim, assim como muitos outros, o seu nome gravado numa página inteira da história do futebol de sua terra natal, a Ipiaú de todos nós.

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