Antenado e polêmico que só ele, Caetano Veloso compôs para tomar conta das ruas de Salvador, Rio de Janeiro e do País, no Carnaval de 1973, um frevo chamado Deus e o Diabo. Canto de resistência, através da música e da poesia, em tempos temerários - assim eram os daquela folia - mas de uma atualidade "estarrecedora", para usar expressão da presidente Dilma, em visita às obras de transposição das águas do Rio São Francisco, durante as greves de PMs na Bahia e no Rio de Janeiro.
Um frevo daqueles de rachar, como é típico dos frevos de verdade, mas sem o tom dogmático e incendiário tão freqüente nas cantigas de protesto daquela década, de choro e ranger de dentes. Muitas delas, diga-se a bem da verdade, entoadas a plenos pulmões pelo autor destas linhas nas ruas, becos e ladeiras da capital baiana em outros carnavais. Além de antenado e provocador, Caetano Veloso é também um visionário. Este dom do artista é o que mais impressiona agora quando escuto, quase 40 anos depois - agora em CD - Deus e o Diabo, gravado no disco antológico Muitos carnavais, que guardo como uma de minhas preciosidades musicais preferidas. Escutemos com atenção o filho de dona Canô. Olhos e ouvidos ligados principalmente na letra, apesar da zoada ensurdecedora em explosões de decibéis que faz lá fora, na rápida substituição da barulheira dos helicópteros da Força Nacional de Segurança sobrevoando Salvador, em voos rasantes nos dias da greve dos policiais militares. Movimento tão estranho em seu começo quanto no final surpreendente.
Golpe à greve Tudo junto contribuiu, cada um à sua maneira, para golpear a greve (transformada em "motim"), com incrível eficácia e rapidez incomum em ações de governo e de estado. A tempo de limpar e preparar as ruas para o carnaval de 2012 passar e transmitir imagens bem mais agradáveis para o mundo, sobretudo aos olhos do poder. "Não se grile/ a Rua Chile sempre chega pra quem quer/ Qual é!, Qual é!, Qual é!/ Quem pode, pode/ Quem não pode vira bode/ Foge pra Praça da Sé./ Cidades Maravilhosas/ Cheias de encantos mil/ Cidades maravilhosas/ dos pulmões do meu Brasil". Em tempo: O governador petista Jaques Wagner passa metade do carnaval em Salvador e a outra metade no Rio de Janeiro, sua terra natal. Vai ao Sambódromo para, ao lado do colega peemedebista Sérgio Cabral, ver o desfile da Portela e de mais duas Escolas que neste Carnaval cantam "as maravilhas da Bahia". Os PMs e Bombeiros, depois da greve (ou motim?) cuidam da segurança dos foliões e dos muitos negócios envolvidos na festa. Até a presidente Dilma decidiu passar o Carnaval na Bahia. Na Base Naval de Aratu, é verdade, mas tão próxima dos camarotes e dos trios, que pode não resistir à tentação de aparecer em uma destas grandes locomotivas atuais da folia baiana. A conferir.
Fonte: Terra

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